21.12.09

SALTO - 1966 (Epopéia)

Texto de José Francisco Archimedes Lammoglia (1920 – 1996)

Nestas palavras, desprovidas de qualquer intenção literária, todavia, sinceras e espontâneas, procurei homenagear SALTO. Nelas há um pouco de tudo: as suas lutas, suas conquistas, suas tradições; seus tipos populares e aqueles que, não medindo esforços, com sua ousadia e altivez, concorreram para a formação de nossa história. Claro está que não me seria possível citar a todos nominalmente, embora, de uma forma ou de outra, através da evocação de um fato ou acontecimento, implicitamente, não deixaram de ser lembrados. É, pois, meu desejo que, nelas, os jovens filhos de Salto, encontrem a inspiração necessária, para continuar a fazê-la forte e próspera, a exemplo daqueles que nos antecederam e dos que ainda, nesse sentido, continuam a porfiar.
Dessa forma, acredito que, despretensiosamente, prestei uma homenagem a minha cidade, a quem todos os dias, desde que a deixei para as lutas da vida, uma parte do meu tempo e pensamento tenho dedicado, como uma prece obrigatória.

1695

Salto nasceu,
Salto de Itu,
Salto de Salto!

Cresceu,
Aumentou,
Quadruplicou,
Espalhou;

Agigantou-se febril,
Impulsionando o Brasil!

Roteiro de glória
É a tua história...

Nasceu sob a égide da cruz!
Da gente que soube amar,
Aquele símbolo de Jesus,
No céu se pode contemplar,
O Cruzeiro
Está no teu roteiro...
Tentarei contar:

VIEIRA TAVARES,
Atravessando mares,
Seguiu com seu par de botas,
Águas do vetusto paulista,
TIETÊ da gigante conquista;
A direita da Cascata,
Do salto de outrora,
Sentou,
Descansou,
Sonhou...

Rompeu a aurora,
Não seguiu.

Parou.

O céu olhou,
O chão beijou,
A Capela plantou;

Pequenina Capela,
Simples, mas bela,
Sem enfeite,
Nem arte.

Que Casa hospitaleira
De nossa Mãe Padroeira,
Senhora do Monte-Serrate!
Venerada com devoção,
Por toda gente,
Da imensa região,
Que orando penitente,
Dedica o coração
A oito de Setembro,
Que jamais se finda
E se repetirá sempre,
Cada vez mais linda!

Depois,
A gente chegando,
Construindo,
Povoando;

Ao lado na Mãe piedosa,
Generosa,
Amantíssima,
Milagrosa,

Surgem casas,
Barracos,
Taperás,
Caminhos,
E feras!...
Pontes escoradas,
Pau-a-pique,
Picadas,
Sem calçadas...

Coisas do sertão,
Da mata
Que se abria
Para aflorar o rincão,
Que um dia
Mais do que o ouro,
Mais do que a prata,
Valeria,
O pedacinho
Que nascia
À direita da Cascata.

Os caminhos,
Feitos de sacrifícios,
E carinhos,
Foram desaparecendo;
Sumindo,
Alargando-se,
Endireitando-se,
Arruando-se!

Sul,
Leste,
Norte,
Oeste!

Tornou-se povoado,
Distante uma légua,
Da Itu histórica;
E sem trégua,
Como estrela que cintila,
Passou à Vila;
Vila e cidade perfeita,
Rua larga e direita.

Em promessa fervorosa,
Um dos Paula Leite,
De árvore frondosa,
Esculpiu a imagem poderosa,
Da VIRGEM e doou,
(Aquela que se queimou),
E na Igreja Velha a colocou.

Vila do Salto de Itu
Que a todos recebeu:
Escravos,
Portugueses,
Todos Bravos,
O espanhol,
O italiano,
Por isso cresceu;
E eu me ufano
De ser filho seu,
Imigrante honrado,
Que tem como Pátria
O solo que é meu;
O campo plantado
Pelo braço incansado...
Do nativo, do europeu!

Na vila
Calma,
Serena,
Tranquila,
A Indústria aparece
E se estabelece
Nova era,
Que prospera:

José Weissohn,
José Revel,
José Galvão,
Fizeram a imensidão.
A Ítalo-Americana,
Pioneira,
Fenomenal,
Desenvolve-se cada ano,
Passa a Brasital;
Com sede em Milano,
Constrói casa
“Atrás do céu”
E o trem soltando brasa,
Leva produto seu;
Estrada de Ferro Sorocabana,
Paralelas do Progresso,
No seu avanço,
Faz sucesso;
Com fumaça e faísca,
A máquina chispa
E o povo se arrisca,
Quer crescer.

A estação aumenta,
Bairros surgem:
Itaici,
Pimenta,
Olarias,
Melhorias,
Ninguém aguenta,
Apressam o crescimento
Momento a momento.
Salto vai indo,
Altivo,
Cativo,
Num burilar infindo!

“Fábrica de Papel”
Na América,
A primeira;
Novas casas,
Novos bairros,
Não há barreira,
Nem em baixo,
Nem no alto,
TUDO PELO SALTO!

“A Fábrica Nova”
Deu prova,
A do Otaviano,
Incendiou-se,
Acabou-se.

Doutor Viscardi,
“Pai do pobre”
Imigrante de alma nobre!
Doutor Pocci, Doutor Mário Rocha,
Doutor Barros Júnior,
Republicano do Distrito,
Seu nome ficou escrito;
Doutor Bicudo, Doutor Assis;
O bondoso Doutor Zé Ignácio...
E no Salto feliz
Esteve José Bonifácio!

Janeiro a agosto:
1912
Água e esgoto!
É Salto brilhando,
No mapa contido,
No coração escondido.

1917
Ninguém se intromete,
Passa a Município;
Novo surto
De vulto,
Novo princípio;
Indústria,
Comércio,
Lavoura,
Luz elétrica!

Enfim,
Belo jardim,
No seu marco,
À direita da Cascata!

Taperás!...

Cascata!...

Fulgurante,
De beleza sem igual,
Do barulho turbulante,
Nascia o ideal;
Hoje vive na saudade,
Como peça nacional!

É o progresso,
É o canal
Que vende a Brasital...

Fartura,
Depois crise
Sofre a criatura:
Enchente,
Revolução,
Doente,
Resignação;

Passa a tormenta,
Olha a amplidão,
O povo enfrenta
E o povo fomenta;

CONTINUA A CAMINHADA!...

Banda de música,
Orquestras,
Teatros,
Palestras,
Clubes,
Escolas,
Adultos,
Rapazolas,
Entusiastas
De sua faceira!

A “Banda da Santa”
Zequinha, maestro que encanta.

“Banda Brasileira”,
Castellari, Mauro, Totico
Requinta sonoro e bom,
Que firme sustenta o tom;

“Banda Italiana”,
Pradelli, Baldi, Dalla Vecchia,
Zuppardo, Ivo, Pasquoalim,
Depois “Gomes-Verdi”,
Tantos outros enfim;

Ecoa assim, a serenata,
Por entre o clamor da cascata,
Músicas maviosas,
Francas boemias,
As suas formosas,
As suas Marias.

Cinemas:
Lopes e Mazza. Pavilhão,
O Zé Pé-no-chão;
Pianista, Itaguassu,
Assim também em Itu;
Alzira, São Bento,
Ruy Barbosa, São José,
O Verdi,
E o que admiro
Até o “Cineminha do Ciro”

Grupos escolares,
Um primeiro,
Outro depois,
Tipos populares,
Revolução de 32!

Tita, homem direito,
Dez anos de prefeito,
Sucede Chiquinho Teixeira,
Honrado e de estilo,
Foi sucedido pelo Chichillo,
Souza Aguirre orador oficial,
Em toda data Nacional.
Contado em prova e verso,
Gaó percorre o universo,
Mostra o nosso tesouro,
Anselmo a Palma de Ouro,
Confirma o atestado,
Que deu o Secretário de Estado.

Beterelli com suas trovas
Sempre novas;
“Comeu formiga”
O flautista Taragim;
“Garrafinha virou”
A Miquelina,
Discurso sem fim
Do Jacomim.

Braveza e prosa,
O Hilário Zebu,
Bastião das Nuvens,
Busca o ariticu,
Não perde a fama,
A distribuir programa,
O Bastião Raposa;
Náne Pé-de-Pato,
Por ter pé chato,
Pernas em bodoque,
Luizinho Roque,
Sílvio Ribas, Henrique Tatângelo;
Guerino,
Desde menino,
Rato Branco,
No Salto risonho e franco;
“Lá tem cobra”
“Não sou guindaste”
“Não quero sobra”
“Não sou relógio”
É o Durico,
Mineiro Pobre,
Mineiro Rico;
O Zabé:
“Cantá, pulá,
Mai mió,
O grilo tá no jardim,
Cri-cri-cri,
Fai assim”
Zabé Bobo!
O Nhô Zé,
Zé Batatão,
Vira lobo:
Uma história,
Uma tradição,
Carroceiro,
Sacristão...

SALTO, assim é!
A risada do Urubatão,
O Fanfula do Franchiné;

Roquinho,
Filho do Chicão:
“Amendoim torradinho”
No cinema, na tourada,
No coreto, no circo,
No portão
Do futebol.

Futebol! Futebol!
Italo, o esquadrão,
Que deu paulista campeão!

SALTO X ITU
Confusão,
Briga,
Discussão;
Que espiga;
Polícia,
Sem malícia,
Tibúrcio, Dito Quarenta,
Nenhum sustenta,
Morteiro,
Rojão.

Coisas de irmão!

Padre Monteiro,
O melhor sermão,
Pregador da Festa;

Festa do SALTO,
Que assombro!
Na procissão,
A Padroeira passeava no ombro,
Hoje passeia na mão.

Não zangue, patrão!

Nas esquinas o bate-papo,
Itu é chamado “sapo”,
Revida ele, daí
Chamar Salto “mandi”,
Assim definidos,
Vivem hoje unidos.

Salto de Itu,
Itu da brasilidade,
A fidelíssima,
Roma brasileira,
Da Convenção;
Capital da Região,
Cidade lendária,
Da Virgem Candelária,
Nossa também,
CRISTO não nasceu em Belém?

Na festa todos vêem:
Bolas, bolinhas,
Balões,
Barcos, barquinhas,
Aviões;

Ciganas, Tiro ao alvo,
(Ponha sua carteira a salvo!)
Parques e rodas gigantes,
Luzes, músicas, alto-falantes;
Montanha Russa, Cavalinho de Pau,
Cus-cus, pastéis, mingau,
Pinguço, mulher barbada,
Churrasco, petisco,
Sorvete, soda-limonada;

A Procissão de São Francisco,
Pipocas, paçocas, torrão,
Café, chás, quentão,
Frango, cabrito, leitão;
Roupas feitas, presilhas, chinelas,
Relógios, calçados, blusões,
Máquinas, caçarolas, panelas,
Cadarços, cintos, fivelas;
Cantores, sambas, batuques,
Roletas, mágicos, truques,
Foguetórios e foguetões;
Na festa em benefício,
Com fogos de artifício,
O êxito é total,
E a canseira geral!

Temos ainda agora,
Romaria a Pirapora.

Escolas Municipais,
Rurais,
Coleginho,
Das filhas de São José:
Educação,
Carinho,
E fé;

Escola Anita,
Que palpita,
Ginásio,
Escola Artesanal,
Colégio Industrial,
Escola Normal!
Os professores,
Que primores!
Beliscavam,
Mas ensinavam...

Baxixa, o Paula Santos,
Berreta, João César, Celino,
Rigorosos como tantos;
Cláudio Ribeiro, Bruno, Lordelo,
Austeros, decisivos, modelo,
Joana, Argentina, Cornélia,
Põem em suspense;
Ana Rita, a primeira Saltense,
Argelina, Dinorah, Isabel,
Desfazem a Torre de Babel;
Georgina, Elisa, Laurinda,
Severiano, saudade infinda,
Antonieta, Nair Colli, Rosária,
Antônia Laghi, Plínio, Alice,
Incutem a letra primária;

Motta Navarro, Celina, Serafina,
Otília, Helena, Benedita Rezende,
Com ardor o Salto defende;

Hermelinda, Lucinda, Transvalina,
Maria Ferraro, Cotinha, Maria Augusta,
Nossa homenagem justa;

Lourdes Carvalho, Belica, Jandira,
Gratidão nos inspira;
E outras formam a plêiade,
Que ensinou mestres, engenheiros,
Médico, operário, dentista,
Farmacêutico, advogado, cientista,
Homem do comércio, espectador, artista;

Anastácio, Frias, Paulito,
Gertrudes, Geraldo, Florindo,
Completam o buquê tão lindo.

Progresso!
Progresso!
Progresso!

Sem recesso.
O calçamento,
Major Garrido,
Homem querido,
Foi o pensamento,
Fazia dupla,
Doutor Mendonça
Ficava onça
Pelo tempo perdido;
Centro Popular
De Educação Física e Moral,
Concentrando a criança,
Evoluindo os pais,
Arregimentando os mestres,
Felicitando casais,
Assim começou,
Não parou mais.

“SOU SAPECA,
SOU SAPECA,
PERERECA”

Carnaval,
Pancadão,
Com boizinho,
Banda infernal,
Hoje só de salão...

Esporte avança,
Corinthians,
Que lembrança,
Campeão da Apea!

Ipiranga,
Outro valente,
Astro da Via Láctea;
Juntaram-se,
Uniram-se,
Associaram-se...

Atlética Saltense,
Simpática agremiação,
“A Gloriosa”
Honra e tradição,
Saltense do coração;

Rompe o Guarani,
Cacique,
De briosa equipe,
Popularidade,
Ao derredor e na cidade,
“O mais querido”
Nunca se deu por vencido;

Da refrega descansa,
Vem a bonança
E com ela os amadores,
Outros amores;

XV de Novembro
“Rei da Vila”
Nacional
“O maioral”
Emas,
“Das surpresas, o tal”;
Canto do Rio,
“Apaga qualquer pavio”

Avenida
“Canarinho da Ilha”
Estudante,
Há muito palmilha
Sua trajetória brilhante;
Sivat
Não é nula
Hoje o caçula.

A Siri, o Ideal,
A Siros, do operário,
Tudo igual,
Sociedade repositário,
Do povo fabuloso,
Grandioso,
Extraordinário!

Cooperativa,
A expectativa,
Do calendário,

Sociedade Italiana,
Socorro Mútuo,
Com a farmácia,
Prestando serviço
À economia
É vista com simpatia.

São Vicente de Paulo,
Coisa louca,
Como si, muito pouca!
Tudo aqui é organizado,
O respeito é primado;

Prefeitura,
É a estrutura.
Câmara Municipal,
Sindicatos, Rotary,
Associações religiosas,
Não religiosas,
Entidades,
Reúnem felicidade;
Para todos e em todos,
Com sinceridade,
SALTO, é desse jeito!
Coisa que enche o peito!
Toda sorte de atividade,
No velho, na mocidade,
Preocupados em vencer,
Razão que fez Salto crescer,
E o mundo conhecer,
Através de seus filhos,
Que não temem empecilhos!

São Francisco, Três Marias,
Buru das Romarias,
Vila Teixeira, Vila Nova,
Porto do Góes, Ponte Caída,
Estação mui conhecida,
Bela Vista ou Risca Faca,
Ex-Lageado não impaca,
Guaraú, Pedra Branca,
Conceição, Piraí,
Boa Vista, a daqui,
Chapada e Castanho,
Morro Vermelho,
Hoje é estranho.

Tudo cresce,
Tudo floresce,
Na SALTO querida,
Fazendo feliz a vida!

Effori, Dario, Conte,
Peixoto, Pelis, Barcella,
Rodrigues, Puentedura, Casalli,
Emas, Cerâmicas, Eucatex,
Sivat, Picchi, Baldi,
Bergamo, Carra, Galafassi,
Fabbri, Piratello, Begossi,
Grenci, Maniero, Irmãos Telesi;
E tantos outros cooperadores,
Lavoura, Comércio, Bancos,
São os construtores!

Temos tudo,
Fazemos tudo,
Tudo damos,
Em todos os ramos,

Diria como o soprano,
Cantando em italiano,
“Ecco populo la questione”
Ao sabor do champanhe,
Do Donalísio
E do Milioni,
Na cidade simpática,
Que também cura ciática!

Padre Lourenço,
Padre Pepe,
Padre Arthur,
Projeto do Scarano,
Elaborou com plano;
Monsenhor Couto,
Venerando,
Que a Matriz constrói,
A outra o incêndio destrói,
No entanto, mais se anima,
As bênçãos vem de cima,
Constrói e orienta tudo aquilo,
Do Isolamento fez o Asilo
E do progresso o veredito:
Paróquia de São Benedito!

Católicos,
Apostólicos,
Espíritas,
Crentes,
Protestantes,
Não há ateus,
A terra é de DEUS,
Para o homem,
Sem brigas,
Nem intrigas;
Estas somem
No ardor da luta;
A união é pronta,
O amor desfruta,
A paz desponta,
SALTO, assim é
Na esperança,
No amor,
Na fé!
O povo é todo valente,
Valoroso,
Vibrante,
Fabuloso;

Do Tietê ao Lageado,
Do Jundiaí ao Ajudante,
Neste imenso quadrado,
De trabalho fecundo,
É uma só família,
Em todo este mundo,
De harmonia e compreensão:
Estrangeiros,
Brasileiros,
Paulistas ou não,
Querem ver grande
Esta amada Nação;

País, Esperança do Hemisfério,
Neste rincão desde o Império;

“SOU SAPECA,
SOU SAPECA,
PERERECA”...

Quando tínhamos Monarca,
Aqui esteve o Patriarca;

SALTO, eu te saúdo em toda época!

Eu te beijo agora, SALTO COMARCA!

Archimedes Lammoglia
Agosto de 1966

14.12.09

Hilário Ferrari



Hilário Ferrari nasceu em 1880, na cidade de Mântua, na Itália. Era filho de Casimiro Ferrari e Albina Longhi. Chegou ao Brasil em 1883, na companhia dos pais e seis irmãos, desembarcando no porto de Santos. Inicialmente, a família se dirigiu à Fazenda da Grama, em Indaiatuba. Hilário casou-se em 1900 com Rosa Patucci, tendo 13 filhos. Em 1904 veio para Salto, instalando-se na zona rural, no bairro do Buru. Destacou-se na lavoura e na pecuária, em especial no trato de cavalos.

Em 1912 mudou-se, com a família, para a zona urbana de Salto. Passou então a participar ativamente da vida social e política da cidade. Tornou-se proprietário do Grande Bazar Saltense, atual Armazém Popular, ainda hoje em atividade e administrado por seus descendentes. Teve grande propriedade para além da antiga estação ferroviária. Esteve envolvido com a atividade esportiva, em especial com o futebol, participando de vários clubes locais, como o Ítalo Futebol Clube, o Corinthians Saltense e a Associação Atlética Saltense. Foi um dos fundadores, em 1927, e primeiro presidente da extinta Sociedade Instrutiva e Recreativa Ideal. Colaborou ainda com outras entidades, tais como a São Vicente e a Socorro Mútuo.

Na vida política, o italiano Hilário Ferrari foi vereador por quatro mandatos. Chegou a assumir a Prefeitura entre 1927 e 1930, sendo deposto em decorrência da Revolução de 30. Foi reconduzido ao cargo de prefeito em 1938, permanecendo por poucos meses, já que o governo brasileiro passou a não mais permitir o exercício desse cargo por estrangeiros. Como prefeito, Ferrari foi responsável, principalmente, por equilibrar as finanças do município, em seu primeiro mandato, e zelar por pontes e estradas, no segundo. Falecido em 1968, seu nome foi dado a uma escola rural, a uma rua no bairro Marechal Rondon, bem como a uma rodovia.

O italiano Hilário Ferrari, prefeito de Salto em duas oportunidades, em foto de 1960.

10.12.09

As enchentes de 1929 e 1983

Nessa semana foi notável a elevação do nível das águas nos dois maiores rios que cortam a nossa cidade, o Tietê e o Jundiaí. Muitos foram os saltenses que se dirigiram aos pontos de observação mais privilegiados, como a Praça Archimedes Lammoglia – em específico ao mirante sobre o Memorial do Rio Tietê – e aos arredores da Ilha Grande e da Ponte dos Pescadores. Houve aqueles que foram ao Parque do Lago e viram o lago confundir-se com o próprio rio Tietê. Contudo, o volume observado nos últimos dias é bem menor se comparado ao que se viu em Salto nos anos de 1929 e 1983. Abaixo, um vídeo da cachoeira com volume anormal de água, na noite de 08/12/2009:



1929
Embora existam referências de meados do século XIX a respeito de uma grande enchente que destruiu a ponte que ligava as margens do rio Tietê, na altura do atual bairro da Barra, passando por uma ilha (conhecida antigamente por Ilha da Santa Feia, pouco acima da atual ponte Salto-Itu), os relatos de antigos moradores de Salto informavam que a enchente de 1929 havia sido realmente extraordinária. Uma das fotos que se tem desse episódio, de autoria de Biágio Ferraro, mostra as águas cobrindo a Ilha dos Amores, onde existia um coreto. Naquele instante captado pela câmera, as águas ainda não haviam atingido seu ponto máximo, já que, horas mais tarde, elas levariam o telhado do coreto mencionado, visto que chegaram até a calçada da Rua José Weissohn.



A Usina de Lavras – inaugurada em 1906, junto à margem direita do rio Tietê, à montante do salto – sofreu grandes danos com a enchente de 1929. A elevação do nível das águas atingiu a casa das máquinas e comprometeu os equipamentos. Após essa enchente, Lavras foi desativada. Quando voltou a operar, em 1935, algumas medidas foram tomadas com o intuito de se evitar estragos semelhantes: os geradores foram colocados sobre cavaletes e nas janelas ao lado do rio foram levantadas muretas. Lavras seria paralisada definitivamente em 1956, já estando, então, bastante obsoleta.


Dependências da Brasital, próximas à Ilha Grande, na enchente de 1929.

1983
Nos primeiros dias de fevereiro de 1983, a cidade de Salto foi assolada por aquela que, segundo muitos, foi a maior das enchentes já vista pelos saltenses. No dia 2, as notícias vindas da capital e de outras cidades rio acima anunciavam os estragos possíveis de ocorrerem em Salto com a chegada do grande volume de águas. As autoridades locais, empossadas no dia anterior, trataram de tomar providências visando minorar os estragos e riscos. Cerca de duzentas famílias, moradoras de áreas de baixada, como uma parte do Jardim Três Marias, foram transferidas às pressas.

No dia 5, sábado, o jornal Taperá trazia o seguinte título em sua primeira página: “A cidade invadida pelas águas de 2 rios”. E detalhava o drama: “O nível das águas superou, na última 3ª feira, as marcas existentes na usina da Eletropaulo, no Porto Góes e numa das dependências da Brasital S.A., em cerca de um metro [comparação feita com a enchente de 1929]. Locais jamais atingidos anteriormente, nas proximidades dos rios Jundiaí e Tietê, desta feita foram invadidos pelas águas, como parte da avenida Vicente Scivittaro, Jardim das Nações, Largo S. João, rua Mal. Deodoro, rua Coelho Neto e outras do Jardim 3 Marias, final das ruas Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. Diversas indústrias também sofreram grandes prejuízos, sendo que algumas chegaram a paralisar suas atividades. Dezenas de famílias ficaram desabrigadas, sendo amparadas por familiares, amigos, Poder Público, clubes de serviço e por outras pessoas (...).”

A cobertura jornalística da enchente, no mesmo Taperá, trazia ainda episódios notáveis ocorridos nos dias anteriores. Ao abordar o drama das famílias atingidas, em “Ato de heroísmo”, conta-se como uma família foi salva: “A maioria dos saltenses deram mostras de seu espírito de solidariedade, mas houve alguns casos expressivos, (...). Foi o que aconteceu com Celso Andreotti e Euclides Rocco, que ao tomarem conhecimento que a família Arpis, com 8 pessoas, estava presa na casa em que residem no estádio ‘Luiz Milanez’, na Ilha Grande, imediatamente conseguiram um bote a motor, de propriedade de João Rocco e realizaram diversas viagens até o local, da meia-noite até as 4 e meia da manhã. Trouxeram todas as pessoas que se encontravam na casa, enfrentando o perigo da correnteza, salvando ainda diversos objetos de sua propriedade. Quando Celso e Euclides chegaram à casa, seus moradores já estavam com água pela cintura e desesperados com a possibilidade de serem levados pela correnteza, o que, felizmente, não ocorreu. Parte da casa, além do bar, vestiários, alambrado e arquibancada do estádio da A. A. Avenida foi destruída, mas não se verificou nenhuma vítima fatal.”

Outro episódio refere-se ao salvamento dos animais do mini-zoológico então existente na Ilha dos Amores: "[A Ilha] foi quase inteiramente coberta pelas águas, fazendo com que diversos animais viessem a morrer afogados ou sendo levados pelas águas. Os que conseguiram sobreviver começaram a ser retirados ontem, pela Polícia Florestal, a partir das 9 horas da manhã. Foram utilizadas, inicialmente, escadas fornecidas pela Brasital, pois a ponte que dá acesso à ilha foi derrubada pela correnteza. Como não foi possível chegar à ilha através desse meio, foi solicitada a vinda de helicóptero da Votec, de Sorocaba, que transportou os componentes da Polícia Florestal e Militar até a ilha. Eles conseguiram retirar o veado, dois macacos, um quati, a onça e outros animais. Dois macacos e a capivara fugiram assustados com o barulho do helicóptero e caíram nas águas, não podendo ser salvos.”

27.11.09

O livro esquecido de Tancredo do Amaral

A escola mais antiga de Salto, ainda hoje em atividade, é a Escola Estadual Professor Tancredo do Amaral. Ela foi criada por meio de decreto estadual de 20/10/1913, sob a denominação Grupo Escolar de Salto de Ytu, e iniciou suas atividades no dia 28 daquele mês. Em sua origem, reuniu 8 escolas espalhadas pelo município e criou mais duas classes, totalizando 407 matrículas em seu primeiro ano de funcionamento.

O Grupo Escolar de Salto recebeu o nome de Tancredo do Amaral apenas em 21 de abril de 1932. Tratava-se de uma homenagem ao primeiro professor formado a lecionar em Salto. O paulistano Tancredo Leite do Amaral Coutinho diplomou-se pela Escola Normal da Capital em 1887. Lecionou por 2 anos em Salto, logo que se formou. Em 1906, formado em Direito, passou a integrar o quadro de funcionários do Ministério Público. Anos depois foi nomeado Juiz de Direito da Comarca de Santa Isabel, onde se aposentou em 1923. Faleceu em Santo Bernardo do Campo, em 1928.

Ao longo da vida Tancredo foi crítico teatral, fez parte da redação do jornal Correio Paulistano e publicou livros didáticos, como História de São Paulo ensinada pela biografia de seus vultos mais notáveis. Esta é sua obra de maior relevo. Tal publicação é de 1895 e foi editada por Alves & Cia. Destinava-se “aos estabelecimentos de instrução popular”, enquadrando-se no segmento de “educação cívica”. No primeiro capítulo, Tancredo versa sobre “Como deve ser estudada a história”, num texto bastante peculiar, carregado de conceitos caros a ele e aos seus contemporâneos, que podem até nos parecer inocentes, hoje: “As nações, meus jovens estudantes, que são grandes agrupamentos de famílias que habitam um território determinado, com certa denominação, e que possuem um governo que dirige, tem a sua história, que é o conjunto dos fatos mais ou menos notáveis, que se ligam ao seu desenvolvimento e ao seu progresso, desde o começo de sua organização. A história de um povo, porém, que é, senão a história dos seus grandes homens, dos seus vultos mais notáveis, que têm trabalhado pelo ideal humano, que é o aperfeiçoamento sempre crescente, o progresso em uma palavra? Que é a história de um país, senão a história de cada um, empregando a sua inteligência e o seu labor nos diversos ramos da atividade humana para elevar o seu torrão natal, a sua Pátria, para honrar a Humanidade?”

O livro divide-se em quatro partes. Na Parte Primeira, “Preliminares”, trata-se de como se deve estudar a história, da origem do povo paulista, e se faz, ainda, uma descrição física de São Paulo, tratando-se também de sua fauna e flora. Na Parte Segunda, nomeada “São Paulo no domínio da metrópole”, alguns aspectos da história colonial paulista, bem como biografias associadas a esse período, dão o tom da narrativa. É a seção mais bem trabalhada e interessante do livro, na qual a figura dos bandeirantes é posta em destaque, sendo vários deles biografados sucintamente. Na Parte Terceira, “São Paulo no regime do Império”, sujeitos como Libero Badaró, o padre Diogo Antonio Feijó, o pintor Almeida Júnior e o músico Carlos Gomes são lembrados. A Parte Quarta e última trata, fundamentalmente, da história recente à época da publicação, e exalta figuras, muitas das quais com grande destaque no cenário político daquele final de século, como Rangel Pestana, Bernardino de Campos, Cerqueira César e Cesário Motta Júnior – este, inclusive, é a quem Tancredo dedica o livro. A seguir, transcrevo uma das biografias, a título de exemplo:

BARTOLOMEU BUENO DA SILVA, O ANHANGUERA

Nasceu na vila de Paranaíba e era filho de Francisco Bueno, sobrinho de Amador Bueno da Ribeira e de D. Filippa Vaz. Em 1682 este notável sertanista, à frente de numerosa bandeira, invadiu os sertões onde se achava a famosa tribo Goyá que habitava as terras mais ocidentais de Minas e São Paulo, descobrindo que havia ouro ali, por ter observado que as mulheres indígenas ornavam a cabeça com folhetas daquele metal. Antes de Bartolomeu Bueno, já diversos bandeirantes paulistas haviam explorado quase todo o sertão dos hoje estados de Goiás e Mato Grosso, porém sem resultado. Bueno com facilidade sujeitou a tribo que acabava de encontrar, por ser pouco bravia, e regressou a São Paulo com grande número de índios e muito ouro. Nessa excursão levou consigo um seu filho menor, que mais tarde descobriu as minas achadas por seu pai. Convém aqui narrar o estratagema de que se serviu Bueno para arrancar dos índios a declaração do lugar onde existia ouro. Lançou fogo a um vaso de aguardente, que fez explosão; e os índios aterrados foram compelidos a satisfazer os seus desejos, recebendo então Bueno dos mesmos o nome de Anhanguera, que quer dizer Diabo Velho. Pedro Taques, escritor conceituado, também refere que Bueno tinha um olho furado e que foi daí que lhe veio tal denominação. Foi casado em primeiras núpcias com D. Isabel Cardoso e em segunda com D. Maria de Moraes, deixando do primeiro consórcio nove filhos. Faleceu no lugar que foi seu berço, em fins do século XVII.


Folha de rosto da referida publicação de Tancredo, de 1895.

18.11.09

Oradores saltenses do século XX

Oswaldo de Souza Aguirre (1896-1965)
Nasceu e faleceu em Santo André/SP, mas viveu a maior parte de sua vida em Salto, entre 1920 e 1950, onde foi sepultado. Foi escrivão de polícia no antigo prédio que abrigava a cadeia e a delegacia, na Avenida D. Pedro II, no local em que hoje se encontra o Fórum. Zeloso cumpridor de seu trabalho, também obteve destaque na comunidade saltense como orador eloqüente e sempre solicitado nos eventos cívicos ou quando da visita a Salto de autoridades de destaque.

Seu nome está fortemente associado à história da imprensa saltense, tendo colaborado em diversos jornais da cidade, a exemplo de O Ferrão, O Serrote, O Argus, O Povo, O Trabalhador. Foi ainda redator de O Saltense e diretor do Correio de Salto. Dentre seus escritos encontram-se até mesmo poesias. A sala de imprensa da Prefeitura de Salto, até a alguns anos atrás, recebia o seu nome – homenagem prestada em 1967. Foi diretor do clube Ideal, em 1928. Estava rotineiramente envolvido com as atividades das diversas sociedades e clubes locais.


Inauguração da sala de imprensa Oswaldo de Souza Aguirre, com a presença de Archimedes Lammoglia, Joseano Costa Pinto e Paulo Maluf, 1967.

Hélio Steffen (1923-1984)
Foi vereador de Salto por dois mandatos e prefeito entre 1956 e 1959. Durante os mais de trinta anos em que participou ativamente da vida social e política saltense, Hélio Steffen notabilizou-se como excelente orador, discursando em inúmeros eventos da comunidade ao longo de sua vida. Nasceu na Fazenda Cruz Alta, município de Indaiatuba, sendo filho de Christina Clemente e Eduardo Steffen. Veio para Salto ainda criança, estudando no Grupo Escolar Tancredo do Amaral. Posteriormente, estudou em Itu, na Escola Normal Regente Feijó, instituição na qual se formou professor, em 1950. Dez anos mais tarde, pela Faculdade de Direito de Niterói, diplomou-se advogado.

A partir de 1940 trabalhou como locutor numa rádio de Sorocaba, tendo passado também pela Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro. No final dessa década, de volta a Salto, Steffen participou do Grêmio Teatral Antonio Vieira Tavares, então existente. Aprovado num concurso estadual, em 1951, foi trabalhar como fiscal de rendas na região de Dracena/SP, serviço ao qual se manteve ligado até se aposentar, por problemas de saúde. Em 1956 casou-se com Haydée Leal Nunes, tendo dois filhos.

Como prefeito, Steffen foi responsável por algumas ações significativas para a Salto daqueles tempos, como a construção da Escola Prof. Cláudio Ribeiro da Silva, o asfaltamento da estrada velha Salto-Itu e a aquisição do terreno no qual seria instalada a Escola Prof. Acylino do Amaral Gurgel, dentre outros órgãos, no Bela Vista. A estação de tratamento de água também foi viabilizada no seu mandato. Como empresário, dedicou-se ao ramo da cerâmica vermelha desde 1957.


Hélio Steffen, prefeito de Salto no final da década de 1950.